Cinco relógios até 1500 euros com preços oficiais confirmados nas lojas europeias das marcas — e porque é que não precisas de gastar o orçamento todo.
Aos 1500 euros deixa-se de comprar «um bom relógio pelo preço» e passa-se a comprar o relógio que se quer. É a primeira faixa onde não há compromissos escondidos: safira em todos, movimentos com reservas longas, acabamentos que aguentam ser vistos de perto. E é a faixa onde a diferença entre marcas deixa de ser de qualidade e passa a ser de personalidade.
Sobre os preços: preços oficiais de retalho com IVA, confirmados nas lojas europeias das marcas em agosto de 2026, para a referência concreta indicada. Nesta faixa o desconto de rua num revendedor autorizado anda pelos 10 a 15%, e sobe em modelos com um ano de catálogo.
As escolhas, em resumo
| Relógio | Preço | Melhor para |
|---|---|---|
| Hamilton Intra-Matic Auto 38 | 895 € | Quem não precisa de gastar tudo |
| Tissot Chemin des Tourelles | 925 € | O clássico de todos os dias |
| Certina DS Action Diver 43 | 1.040 € | Mergulho certificado sem drama |
| Hamilton Jazzmaster Open Heart | 1.145 € | Ver a mecânica a trabalhar |
| Sinn 104 St Sa A | 1.450 € | Quem quer engenharia alemã a sério |
Hamilton Intra-Matic Auto 38 mm — 895 €
Referência H38455501. A prova de que não é obrigatório gastar o orçamento todo. O Intra-Matic é a reedição de um Hamilton de 1968 e mantém as proporções da época: 38 mm, mostrador limpo, ponteiros dauphine, caixa fina. Automático com o calibre H-10 e 80 horas de reserva.
É o relógio que resolve casamentos, reuniões e jantares sem chamar atenção nenhuma — e essa é exatamente a intenção. Se o teu problema é «não tenho um relógio para vestir bem», isto resolve por menos de metade do que a maioria das pessoas gasta a resolvê-lo.
Tissot Chemin des Tourelles Powermatic 80 — 925 €
Referência T139.407.11.048.00, 42 mm. O nome vem da morada da fábrica da Tissot em Le Locle. É a linha clássica da marca — mostrador guilhochado, caixa com acabamentos alternados, fundo transparente para ver o Powermatic 80 a trabalhar.
Comparado com o PRX da mesma marca, é menos moda e mais relojoaria tradicional. Se o PRX te parece demasiado visto, este é a alternativa da mesma casa e pelo mesmo dinheiro.
Certina DS Action Diver 43 mm — 1.040 €
Referência C032.607.11.051.00. A Certina é a marca mais subestimada do Swatch Group e este é o argumento. Certificação ISO 6425 — o mergulho a sério, com testes obrigatórios de estanquidade e legibilidade, não apenas «300 m» escrito no mostrador. Bisel cerâmico, espiral Nivachron anti-magnética, Powermatic 80.
O conceito DS, de Double Security, é uma construção reforçada dos anos 60 com vidro sobredimensionado e juntas duplas, que deu à marca fama de indestrutível entre mergulhadores e militares. Pelo mesmo dinheiro há marcas a vender 100 metros e um bisel de alumínio.
Alternativa da mesma casa: o DS PH200M (ref. C036.407.18.040.00), também a 1.040 €, com desenho vintage de 42,8 mm em vez do moderno.
Hamilton Jazzmaster Open Heart — 1.145 €
Referência H32705640, 42 mm. Tem uma abertura no mostrador que deixa ver o balanço a oscilar — a peça que faz o relógio contar o tempo. É a maneira mais direta de perceber, sem abrir nada, o que distingue um mecânico de um relógio a pilhas.
Movimento H-32 automático, também com 80 horas de reserva. É um relógio para quem gosta que se veja que é mecânico, e nisso é honesto — não finge discrição nenhuma.
Sinn 104 St Sa A — 1.450 €
Referência 104.011, 41 mm. A Sinn é uma casa de Frankfurt que faz relógios para pilotos, mergulhadores e forças especiais, e vende os mesmos ao público sem os enfeitar. O 104 é o relógio de piloto de entrada: bisel bidirecional, data e dia, vidro de safira antirreflexo dos dois lados, 200 metros.
O que compras aqui não é design — é tolerância de fabrico. A Sinn publica o que testa e como testa, coisa que quase nenhuma marca de luxo faz. Se te interessa perceber porque é que um relógio aguenta, esta é a marca.
Se puderes chegar aos 1.540 €, o Sinn 556 A (ref. 556.014) é o modelo mais recomendado da casa: 38,5 mm, três ponteiros, o relógio que a marca vende a quem pergunta «qual é que devo comprar».
Se puderes esticar
Aos 1.950 € abre-se a Longines HydroConquest automático de 41 mm (ref. L3.781.4.96.6), que já é outra categoria de marca — 300 metros, bisel cerâmico, e o peso histórico de uma casa fundada em 1832. É o primeiro degrau daquilo que tratamos no guia dos melhores abaixo de 5000 €.
Corda manual, automático ou quartzo — nesta faixa importa?
Importa, mas não pelas razões que se ouvem por aí. Nesta faixa os três funcionam bem; o que muda é a relação que tens com o objeto.
Corda manual obriga-te a pegar no relógio todas as manhãs. Parece um defeito e é a razão pela qual muita gente que começa aqui acaba a colecionar. O movimento é mais fino, o que dá caixas mais elegantes, e há menos peças a falhar. Em contrapartida, se o pousares dois dias, para.
Automático é o que a maioria quer e faz sentido para um relógio de uso diário. Com as reservas de 80 horas que hoje são normais nesta faixa, tiras o relógio na sexta e na segunda ainda anda. O rotor acrescenta espessura e é a peça que mais desgasta.
Quartzo nesta faixa é uma escolha deliberada, não uma poupança — e é perfeitamente defensável. Se o relógio vai passar semanas na gaveta entre utilizações, um quartzo está certo quando o pegas e um automático está parado. Não há nada de errado em preferir isso.
Como escolher, se este vai ser o teu único relógio bom
Faz três perguntas, por esta ordem.
Onde é que o vais usar mais? Se a resposta é «trabalho de escritório», um mergulhador de 43 mm com bisel é o relógio errado por muito bonito que seja — não entra debaixo do punho da camisa. Se a resposta é «tudo, incluindo praia e ginásio», um relógio de vestir com 30 metros vai ficar arruinado.
Quanto mede o teu pulso? Com uma fita métrica, sem apertar. Abaixo dos 16 cm, fica pelos 36 a 38 mm. Entre 16 e 18, 38 a 41. Acima de 18, podes ir aos 42 ou 43. E olha sempre para a distância entre as asas — se for maior do que a largura do pulso, o relógio fica pendurado.
Vais querer trocar a bracelete? Se sim, evita braceletes integradas. São bonitas e ficam presas ao desenho: não pões uma correia de cabedal num PRX nem num Royal Oak sem estragar a linha toda.
O que acontece à garantia
Nesta faixa as marcas dão dois a cinco anos, mas quase todas exigem registo online nos primeiros meses para dar a extensão — a Tissot e a Hamilton passam de dois para três anos assim, e muita gente perde isso por não registar. Faz o registo no dia em que compras e guarda a fatura em digital. Sem fatura, a garantia internacional não vale, mesmo com o cartão carimbado.
O que eu evitaria nesta faixa
O primeiro relógio de uma marca de luxo. Aos 1500 euros consegues o modelo de entrada de algumas casas conhecidas — normalmente o mais pequeno, o de quartzo ou o menos interessante da coleção. Preferes o melhor relógio de uma marca honesta ao pior de uma marca cara. O nome no mostrador não compensa a diferença.
Cronógrafos automáticos. Continua a valer o que já dizia nas faixas abaixo: um cronógrafo mecânico decente começa acima disto. Por 1500 euros, alguma coisa foi cortada.
Edições limitadas de marcas pequenas. Limitada não quer dizer valorizável. Quer dizer que vais ter dificuldade em arranjar peças daqui a dez anos.
Então qual é que eu escolhia
Se é o teu único relógio bom, o Certina DS Action Diver. Faz tudo, aguenta tudo, e a certificação ISO é uma coisa concreta que estás a levar para casa.
Se já tens um mergulhador e queres o oposto, o Intra-Matic, e sobram 600 euros. Ninguém precisa de gastar o orçamento todo só porque o definiu.
Perguntas frequentes
O que é a certificação ISO 6425 e porque é que importa?
É a norma internacional que define o que pode chamar-se relógio de mergulho. Obriga a testes individuais de estanquidade sob pressão, legibilidade a 25 cm no escuro, resistência a choques, ao magnetismo e à água salgada, e a um bisel que só roda num sentido para não te enganar sobre o tempo debaixo de água. Um relógio pode dizer 300 metros no mostrador sem ter nada disto testado. Quando vês ISO 6425 na ficha, estás a comprar verificação, não uma afirmação.
Vale a pena passar dos 1000 para os 1500 euros?
Vale menos do que o salto anterior. Dos 500 para os 1000 ganhas tecnologia — safira, reservas longas, espirais anti-magnéticas. Dos 1000 para os 1500 ganhas sobretudo acabamento e escolha: mais modelos, melhores braceletes, mostradores mais trabalhados. É um salto de gosto, não de função. Se o relógio dos 1000 já faz o que precisas, não há vergonha nenhuma em ficar por lá.
Sinn, Certina, Hamilton — são todas equivalentes?
Não. A Certina e a Hamilton pertencem ao Swatch Group e partilham movimentos e fábricas, o que significa assistência fácil em toda a Europa e peças garantidas durante décadas. A Sinn é independente e alemã, faz engenharia própria e publica os testes que os outros não publicam, mas tem uma rede de assistência muito menor em Portugal. Se valorizas conveniência, Swatch Group. Se valorizas transparência técnica, Sinn.
Devo comprar novo ou usado nesta faixa?
Nesta faixa o usado começa a fazer sentido, porque a desvalorização inicial já aconteceu e os modelos são recentes o suficiente para terem peças. Um relógio de dois ou três anos com caixa e documentos custa tipicamente 25 a 35% menos. O que tens de exigir é a fatura original e o histórico de revisões — sem isso não sabes se o movimento foi aberto por alguém que não devia.
Preciso de fazer revisão? De quanto em quanto tempo?
Um automático moderno pede revisão de sete a dez anos, não de cinco como muita gente repete. O que não deves adiar é a troca de juntas se usares o relógio na água — essas secam com o tempo, independentemente de usares ou não. Uma revisão completa nesta faixa custa entre 250 e 450 euros num centro autorizado. Conta com isso quando estimares o custo real do relógio.